segunda-feira, 1 de junho de 2009

"Negros em novelas ainda são poucos", diz Milton Gonçalves



Na entrevista a seguir, o ator fala sobre racismo e política – meio no qual já atuou e que não pretende voltar. E ainda sai em defesa do seu recente e polêmico personagem. “As contradições do Romildo são muito próximas das do resto da humanidade”.

O deputado Romildo Rosa é inspirado em algum político?

Milton Gonçalves – Minha formação é teatral, considero o Stanislavski [Constantin Stanislavski, ator russo, criador do método de atuação realista, ainda hoje básico na arte dramática] meu grande mestre. Nós, atores, demoramos a aprender que interpretar é fácil. Quando vou fazer um papel, uso tudo que tenho dentro de mim, meu universo secreto. Todo ser humano tem sua reserva de maldade, de horror, seu lado obscuro, que é o que alimenta esses políticos corruptos. Empresto ao personagem o que tenho de ruim. Mas considero o Romildo antes de tudo um pai amoroso e lutador, mesmo com seus sérios desvios de caráter.

Mostrar o lado humano de um político corrupto em uma novela não é uma aposta arriscada?
Gonçalves – As contradições do Romildo são muito próximas das do resto da humanidade. Quantas pessoas não cairiam em tentação diante de um suborno? Ainda mais nesse mundo em crise.

Você acha que ninguém é incorruptível?

Gonçalves – Seria audácia dizer isso. Graças a Deus recebo um bom salário, vivo num céu. Mas vim de família pobre e já vivi situações em que fui tentado a me corromper, a usufruir de benefícios que não me cabiam. E decidi que aquele não era o meu caminho.

Foi durante seu envolvimento com a política [Gonçalves foi candidato ao governo do Rio e atuou como subsecretário do Gabinete Civil na gestão do governador Marcello Alencar, em 1994]?

Gonçalves – Pode investigar e você vai ver que nunca houve desvio de conduta da minha parte. Sou um herói por isso? Não, não sou. Apenas não sou como essa gente que tem por aí.

Você pensa em voltar para a política? Acha que o fato de interpretar um deputado corrupto poderia te prejudicar junto ao eleitorado?
Gonçalves – Sou membro do diretório estadual do PMDB carioca, mas não penso em me candidatar novamente -pela minha idade e pelo bem da minha saúde. Há um carinho muito grande das pessoas que sempre acompanharam meu trabalho, apesar de alguns fãs estarem me chamando de corrupto nas ruas.

Você defende o Romildo?


Gonçalves –
O Romildo, com toda sua demagogia, é um personagem vivo. Em todas as tragédias gregas e na literatura há personagens com desvios de caráter. Quem muda a cara do mundo são os vilões, são os atos de vilania que acordam a massa. Para mim, Romildo é tão clássico quanto Hamlet. E se você observar os quase 40 personagens de ‘A favorita’ verá que todos têm algum desvio ético.

Nos folhetins do passado os personagens eram mais maniqueístas: ou eram "do bem" ou "do mal"...

Gonçalves – Hoje é possível ousar mais, o público não é mais tão ingênuo. As cenas são mais lascivas, é língua pra lá, é gemido para cá... Você acredita que às 21h30 não tem criança vendo televisão? Mas acho que a vida real é muito mais dura e chocante que as cenas de novela.

Você sempre foi um militante da causa negra e lutou por mais espaço para os negros na TV. Sofreu muito preconceito no início da carreira?

Gonçalves – Tive sorte de começar no Teatro de Arena e lá ninguém queria saber se eu era negro, gordo ou baixo. Nossa preocupação era mostrar o país, o brasileiro médio: o mestiço, filho de negro, branco, índio, oriental... Já na TV as coisas foram mais difíceis. Interpretei muitos papéis considerados clichês para um ator negro. Até que um dia cheguei no Dias Gomes e pedi um personagem que usasse terno, gravata e falasse um português correto. E foi pelas mãos da Janete Clair que vivi um psiquiatra, o doutor Percival [na novela “Pecado capital”, de 1975].

E como esse personagem foi recebido na época?
Gonçalves – A polêmica foi maior em “Baila comigo” [de Manoel Carlos, exibida em 1981]. Meu personagem, o Otto, era casado com o da atriz Beatriz Lyra, e você não imagina o que ela sofreu na época, coitada. Foram muitas críticas, do público e até dentro da própria equipe da novela. Era muito raro uma atriz branca, bonita e conceituada fazer par romântico com um ator negro – mesmo ele também sendo bonito e conceituado.

Você acha que há mais espaço para os negros nas novelas atualmente?

Gonçalves – Infelizmente não. Ainda somos poucos e esse é o grande problema. Nesta novela que estou fazendo há quatro personagens negros: o Romildo, a Alícia, o Didu e a empregada da família Fontini, a Antônia. Isso quer dizer que preconceito acabou? Acabou porque a Taís Araújo aparece na capa das revistas de moda? Não, não acabou. Nós somos exceção. E pensar que o negro é mais da metade da população brasileira...

Você acha que a eleição do Barack Obama vai ajudar a diminuir o preconceito?

Gonçalves –
O Brasil define o negro pela aparência, é diferente dos Estados Unidos, que define pelo sangue. Aqui existe essa coisa de marrom, mulato, pardo... Pardo, para mim, é cor de papel de embrulho! O negro americano não é melhor nem pior que o brasileiro. Mas eles aprenderam a lutar, a reivindicar seus direitos, a parar de se vitimizar e a ter orgulho de sua raça.

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