Por Maria José CotrimInaugurando o rol de entrevistas do nosso NEGRO EM DEBATE,o nosso convidado desta semana é o presidente da União de Negros pela Igualdade, Edson França. De São Paulo, ele respondeu às perguntas encaminhadas.Dentre os principais questionamentos, Edson relatou a contribuição do movimento negro para as mudanças sociais no Brasil.O presidente ressalta o diálogo “positivo e constante” entre a política e o movimento.
Veja a entrevista:
1- Para você qual a contribuição efetiva do movimento negro para as conquistas em prol da Igualdade Racial?EDSON FRANÇA - Penso que a principal e mais efetiva contribuição do movimento negro para a igualdade racial é ininterrupta luta manifestada ao longo dos séculos de combate ao racismo e aos racistas. Realizamos inúmeras ações políticas (marchas, assembléias, plenárias, conferências, articulações, pressões, abaixo-assinado) reivindicando bandeiras de luta com vista à emancipação da população negra. Convencemos nossos partidos, pautamos o debate no movimento social, onde conseguimos apoio a diversas propostas. O movimento negro foi o principal ator político na conquista política do negro brasileiro, a última batalha vitoriosa foi a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, temos que exigir sua total implantação. Considero que o Brasil dará um salto de qualidade em sua estrutura social e, conseqüentemente, poderá unir o povo brasileiro se observar corretamente as implicações do Estatuto da Igualdade Racial nas políticas públicas nos campos da educação, trabalho, saúde, terra, cultura, comunicação e gestão pública.
2- A Unegro é um dos maiores movimentos do país. Qual e como se manifesta a relação entre a questão partidária, já que a maioria dos membros da entidade milita no PCdoB, e o trabalho desenvolvido pela entidade?EDSON FRANÇA - A UNEGRO é uma organização social de combate ao racismo autônoma, com atuação no movimento negro e na luta antirracismo, estamos nos preparando para ampliar o leque de intervenção da entidade, pois entendemos que assim como as políticas públicas, as ações contra o racismo devem ser transversalizadas, visto que a desigualdade de negros e brancos se constrói e enraíza em quase todos os espaços políticos, econômicos, culturais, sociais e ideológicos. As instâncias de deliberações da UNEGRO são sua coordenação, plenárias, assembléias e congressos, espaços de direção consagrados em nosso Estatuto Social. Nossa relação com os partidos políticos - especialmente de esquerda, pois entendemos que os partidos defensores do atual sistema, defendem igualmente o racismo – é de diálogo positivo e constante. Os Partidos são estruturas de poder, defendemos que a população negra tem que estar dentro, sob pena de atentar contra seu próprio empoderamento. Há na UNEGRO militantes de vários partidos, de fato a maioria é do PCdoB, considero uma característica importante da militância da UNEGRO, pois reforça nossa unidade interna e nos aproxima de um pensamento avançado para o Brasil. Acreditamos e temos visto na prática que a pauta partidária e a pauta do movimento negro não são contraditórias, ao contrario, podem se retroalimentarem, porém nem sempre se encontram, pois tem sentidos próprios. A UNEGRO compreende que parte importante dos avanços conquistados pelo movimento negro foi pauta ou pautado pelos partidos de esquerda, compreendemos que o PCdoB, PT, PDT, PSB, PSOL, PSTU, PMDB têm longa contribuição e serviços prestados a luta contra o racismo
3- Como a UNEGRO vê o espaço que os movimentos conquistaram junto ao governo atual?EDSON FRANÇA - A UNEGRO valoriza os espaços de igualdade racial instituídos pelo governo atual, entendemos que a institucionalização de espaços de igualdade racial na estrutura administrativa do governo é um tiro certeiro no discurso da democracia racial propugnado oficialmente pelo Estado brasileiro, interna e externamente, até inícios dos anos 2000. Quando o Estado institui um órgão (SEPPIR), ligado a Presidência da República, dá um recado eloqüente à sociedade brasileira da necessidade de combatermos o racismo e produzirmos a igualdade entre negros e brancos. Defendemos para o próximo governo a manutenção e fortalecimento institucional da SEPPIR, e a capilarização de estruturas análogas descentralizadas regionalmente e em diversos ministérios. Assim o Estado terá maior capacidade gerencial para dar real efetividade e eficácia nas políticas de igualdade racial.
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O movimento negro sofre um processo de descaracterização das bandeiras de luta principalmente com relação à política de cotas. Como a entidade lida com isso?EDSON FRANÇA - A UNEGRO não considera as bandeiras de lutas do movimento negro descaracterizadas, ao contrário, todas são importantes para luta contra o racismo. No entanto, consideramos insuficientes para emancipação de uma maioria populacional, consideramos que parte importante das nossas bandeiras não dialoga com a necessidade da população negra ascender e compartilhar o poder político e material no Brasil. Consideramos uma fábula a idéia de que seja possível combater o racismo no marco do sistema atual, por isso a luta pelo poder político é deve ser a razão da existência do movimento negro. Defendemos que a luta atual do movimento negro tem que ter como prioridade a ascensão de negros e negras no poder, para nele operar as mudanças com objetivo de construir uma sociedade justa, sem racismo e sem nenhuma forma de opressão.
5- Quais as bandeiras de luta da UNEGRO e como a entidade vem se consolidando nos estados?EDSON FRANÇA - A UNEGRO não tem bandeira específica, singular, ao contrário, nossas bandeiras são as mesmas do movimento negro brasileiro. Construímos juntos somos coletivamente autor e atores da luta racial no Brasil. Não temos coelho em cartola. É assim nacionalmente e tem sido assim nos estados. Hoje, estamos incomodados com a quantidade de propostas que não saem do papel. Somos o um movimento social fértil em formulação, pautamos o debate político no Brasil em vários momentos, estamos capilarizados em quase todos os municípios brasileiros. Falta-nos força política para dar materialidade em nossas propostas. A UNEGRO compreende que somente com força e vontade política será possível as bandeiras de luta do movimento negro ter real viabilidade.
6- Existe hoje, na sua opinião, uma disputa por espaço entre as várias entidades voltadas para a temática étnico-racial ou a relação é de união em prol da causa?EDSON FRANÇA - Tenho dialogado com muitas lideranças do movimento negro brasileiro, minha percepção é de que estamos diante de um momento de amadurecimento e unidade, hegemonicamente. Há sim, aqueles que apostam na cizânia, mas são minoritários. Pois a luta contra o racismo e pela elevação social do negro é o substrato de toda nossa existência. Considero normal a diversidade no meio de uma grande unidade, em outras palavras, é perfeitamente previsível que as entidades tenham táticas políticas, ideologia e projetos singulares. Mas não são contraditórios, pois todos lutam contra o racismo.
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Qual maior desafio atualmente na luta pela reparação social no país?EDSON FRANÇA - A UNEGRO compreende que o maior desafio para reparação do negro e da negra brasileira é o compartilhamento do poder político e econômico entre negros e brancos, não acreditamos que as políticas públicas tenham potencial para reparar erros e dívidas seculares, quando muito mitigam desvantagens. Temos que construir um país de iguais, isso é reparar.